Mulheres da Zona Norte descobrem arte urbana com o Rota da Cultura e pintam muro no Casarão da Vila Guilherme

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Foto: Divulgação

A surpresa foi geral. Ao verificar as inscrições para as oficinas e visita ao Beco do Batman como parte do projeto Rota da Cultura, os organizadores da Aymberê Produções e do Casarão da Vila Guilherme se depararam com uma lista só com nomes de mulheres. E mais: são mulheres de diversas idades, de 20 e poucos até 62 anos. Mas o que teria atraído tantas mulheres a querer aprender sobre arte urbana e visitar um local de São Paulo conhecido por seus muros apinhados de grafite?

O Rota da Cultura é um projeto que pretende fomentar discussões contextualizadas, reflexões, apreciação e vivências com a Arte, de modo transversal, que acontece a partir de uma descoberta de espaços da arte na cidade de São Paulo. Desde março, já levou dezenas de jovens de escolas públicas do Parque Vila Maria a espaços como a Pinacoteca do Estado, Museu Afro-Brasil, Beco do Batman e uma rota da arquitetura, que reúne num mesmo passeio o Centro Cultural São Paulo, Casa do Japão e Casa das Rosas. Cada saída envolve também duas oficinas, uma de preparação e outra de elaboração artística, em que os participantes são convidados a produzir arte também.

Conversamos com uma das veteranas do grupo de alunas, Vanda Cecília Rodrigues Soares, de 62 anos, aposentada. Ela soube do projeto por meio de sua filha, se inscreveu e já participou do primeiro módulo. “Estou adorando, abre a mente da gente”, diz Vanda, que nunca tinha ido à Pinacoteca do Estado. “Agora já sei o caminho, posso levar meu neto e contar para ele as coisas que eu aprendi”, completa. E o que foi que aprendeu? Vanda exemplifica com a obra que mais a sensibilizou na visita: América, do pintor austríaco Stephen Kessler, que traz uma representação do século XVII de índios: “Aprendi a ver como os índios nesse quadro não têm cara de índios, usam sapatos, é uma mistura da imaginação com a realidade”.

Para Patrícia Marchesoni, arte-educadora, co-autora do projeto e coordenadora das oficinas e visitas, o projeto tem mostrado que é possível criar conexões muito fortes por meio da arte e da cultura. “Um dos objetivos é, através da Arte, trazer luz à temas que sejam relevantes aos participantes em seus contextos específicos de modo que, além de uma mera ampliação de repertório cultural, as vivências propostas possam enriquecer suas vidas cotidianas, tendo como mote dois eixos centrais: identidade e cidade.” explica Marchesoni. Cada uma das mulheres que se inscreveram, juntamente com a Vanda, tem uma vivência, tem um interesse. Mas o projeto consegue abrir espaço para dar vazão a uma experiência coletiva em que todas essas histórias podem se conectar.

Não por acaso, Vanda acrescenta mais um encontro à lista: “Fiz várias amizades nesse projeto”. Ela espera ansiosamente pelo próximo módulo e diz ter gostado muito do módulo relacionado ao Beco do Batman. “Eu adoro hiphop, adoro grafite”, diz ela, mostrando que é possível também estabelecer conexões entre idades e visões de mundo. Após a visita, Vanda e os outros participantes do projeto experimentaram eles mesmos a linguagem do grafite e pintaram um muro do Casarão da Vila Guilherme.

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